O Artista Renascentista e Seu Cliente

Finalmente chegamos ao Renascimento. Antes de falarmos da arquitetura em si resolvemos falar um pouco sobre como eram os artistas e os clientes do Renascimento e as principais características da economia voltada para a pintura (quadros, painéis de altares, afrescos) naquela época.

Para entendermos qual era a importância de cada um na relação contratante e contratado devemos entender da onde surgiram esses clientes. O Renascimento não foi apenas voltado para as artes e para as ciências, ele também foi voltado para a economia, que viria beneficiar diversos outros campos da até então Idade Média, que se tornaria a Idade Moderna graças a ele.

Com o surgimento de rotas comerciais as cidades foram se desenvolvendo, deixando de lado o sistema feudal e se tornando adeptas ao capitalismo econômico baseado no sistema de troca.  Com isso houve o surgimento dos burgueses que logo adquiriram grande quantia em dinheiro e começaram a investir nas artes e nos pintores. Acredita-se que eles faziam isso para demonstrar a sociedade e para a igreja que apesar de terem muito dinheiro, eles se preocupavam com a cidade e com a religião. Assim surgem os clientes, também chamados de mecenas por muitos, apesar do termo ser empregado para diversas situações.

A relação entre o pintor e o cliente podia ser considerada como uma relação social, na qual o cliente encomendava, fornecia o dinheiro e as vezes os materiais e decidia como usar a obra feita pelo pintor, sempre seguindo as regras e ideologias das instituições da época, como a igreja. Apesar de o Renascimento ser conhecido pelo renascer de novas idéias, tanto os clientes como os pintores seguiam o que a igreja falava, porque nunca abandonaram sua fé.

Os mecenas ou clientes especificavam como queriam as obras, e o pintor era obrigado a fazer o que lhe foi dito. Porém existiam três tipos de mecenato. O primeiro é o Mecenato de Sistema Doméstico, no qual o cliente pagava o salário que achava justo, e levava o pintor para morar com ele ou cedia terras, moradia e comida para que ele pintasse o que o mecenas quisesse. O segundo é o Mecenato de Sistema Sob Encomenda, no qual o artista era contratado para fazer o que o cliente especificou com mais ou menos detalhes. E o ultimo é o Mecenato de Sistema de Mercado, no qual os pintores vendiam suas obras já prontas em feiras, elas se limitavam objetos como as Madonas e Arcos Nupciais, e eram feitas por artistas menos requisitados e conhecidos.

A pintura era um produto, e aquela época se resumia em praticas econômicas que se materializaram nela. O autor Baxandall, as compara a fósseis da vida econômica, pois a partir delas conseguimos definir uma sociedade, seus gostos e seu poder econômico.

Giovanni Rucellai, negociante Florentino que empregava diversos pintores, nos apresenta alguns motivos que fariam os clientes quererem comprar pinturas. Ostentar que possuía uma obra de um grande pintor; glorificar a Deus, a honra da cidade e a si próprio; possuir o que há de boa qualidade, feito com bons materiais; o prazer de gastar seu dinheiro em coisas boas (seja como doação ou como um pagamento de taxas a igreja) e contemplar boas obras, esses eram alguns dos motivos que motivavam a compra dessas obras.

Como a pintura era algo muito importante para a época, para o status do mecenas na cidade, ela não era deixada apenas na mão do pintor, ou seja, o cliente controlava o artista a fazer o que ele queria e como ele queria. Existiam dois tipos de encomendas, as individuais e as controladas por grandes instituições, como a igreja. As individuais eram empreendimentos pessoais, destinadas a lugares públicos (enaltecer o caráter do contratante), já as das grandes instituições eram empreendimentos coletivos ou comunitários. Geralmente o pintor trabalhava com encomendas individuais e o escultor para as das organizações.

 Não haviam um contrato padronizado com diversas clausulas entre o pintor e o cliente. O que havia eram documentos legais registrando os elementos obrigatórios que deveriam aparecer na pintura e também estabelecia as obrigações entre ambas às partes. Não existia um padrão como já dito, por que não existiam regras nem sindicatos, muitas vezes esses documentos eram informais, até mesmo em formato de carta. Existem três características em comum que apareciam em quase todos eles: o que deveria ser pintado, como e quando o mecenas deveria pagar e quando o pintor deveria entregar a obra e a insistência para que o pintor usa-se cores de boa qualidade, como ouro e o azul ultramarino. O pagamento era a soma paga em prestações, as despesas do pintor às vezes eram contadas a parte e diferenciadas do valor que ele receberia pelo trabalho. O cliente ainda poderia fornecer os pigmentos mais caros, como o azul ultramarino, utilizado para ressaltar os principais personagens da pintura, e pagar pelo tempo e habilidade do pintor.

No inicio do Renascimento os clientes prezavam muito pelas cores usadas, e pela qualidade que elas possuíam, com isso as obras era vendidas pensando na qualidade das tintas utilizadas.  Isso começou a mudar na fase conhecida como Quattrocento, as cores começaram a sair do papel principal e os clientes começaram a comprar pela habilidade de cada artista. O cliente do século XV comprava habilidade e técnica nas pinturas. Alberti, famoso tratadista do período, falava em um de seus tratados que não era necessária a utilização de ouro nas pinturas, a técnica do pintor em transformar vários tons de amarelo no tom dourado deveria ser mais importante do que se pintar com esse pigmento tão caro.

Com essa mudança na hora de escolher quem faria determinada obra, começou uma espécie de competição entre os pintores. Quem possuísse maior técnica e habilidade conseguiria mais serviços. Os clientes chegaram a contratar pessoas que se igualavam a olheiros, elas eram responsáveis em trazer os nomes e as principais características do pintor em relação a sua obra, sejam elas boas ou ruins.

A evolução dessa relação cliente e artista é perceptível durante os anos. O artista se adapta as exigências do cliente, as tendências, a realidade da época e aprimora suas técnicas e habilidades para agradar os mecenas e difundir sua obra. Na fase do Quattrocento finalmente o que mais vale na obra é a habilidade do artista, a maneira com que ele procedeu na obra, sua técnica e sua marca.

Depois de entendermos essa relação podemos nos aprofundar na Arquitetura Renascentista.

Bibliografia

BAXANDALL, Michael. O olhar renascente: Pintura e Experiência social na Itália da Renascença. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, pp.11-35.

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