Igreja e Convento de São Francisco na Bahia

“Persuasivos, dramáticos, coloridos e exuberantes, os revestimentos ornamentais constroem um ambiente único e coeso, onde a retórica corrobora para que o fervor cristão chegue ao seu ponto máximo. Afinal, este é o barroco, organizando o espaço, preparando o físico e alimentando o espírito para a maior função que pode ser atribuída a um ambiente interno: fazer deste templo a morada de Deus, através do Santíssimo Sacramento.” (AYRES, 2015)

O objetivo deste texto é analisar as características e técnicas construtivas utilizadas na construção da Igreja e Convento São Francisco, localizado na antiga capital do Brasil colonial, Salvador. Além disso, comentar a história e sua implantação no conjunto urbanístico de Salvador.

Construída na época em que Salvador ainda era capital do Brasil colônia, essa igreja e seu convento são a expressão máxima do barroco na Bahia. Apesar de seu exterior ser simples e seguir características maneiristas, seu interior possui todas as características de uma igreja barroca. A riqueza dos detalhes e acabamentos, a dramaticidade, o excesso de talhas douradas, o uso do azulejo português, tanto na igreja como no convento, entre milhares de detalhes que deixam explicita sua importância no cenário cultural da Bahia e do Brasil.

Motivo de polêmica para outros franciscanos, como os alemães que vieram restabelecer a Ordem no Brasil, a igreja coloca em contradição o desapego de bens materiais pregados pelos frades desde o inicio da ordem e por São Francisco. A frase “A Deus tudo e aos frades apenas o necessário” segue como argumento para defender a extravagância deste monumento Franciscano.

É impossível não sentir a imponência dessa igreja diante da riqueza transmitida por ela. As imagens dos santos conversam perfeitamente com essa extravagância e a dramaticidade do lugar. Considerada uma das sete maravilhas do mundo lusófono, ela consegue impor-se diante de várias outras igrejas, até mesmo igrejas europeias que seguiam o mesmo estilo. Patrimônio histórico de nosso país, ela merece ser cuidada e zelada, para que continue enchendo nossos olhos e os olhos das gerações futuras.

Contexto histórico

 No centro histórico de Salvador, de frente para o Cruzeiro de São Francisco está localizada um dos mais importantes monumentos barrocos da Bahia, a Igreja e Convento de São Francisco.

 A história dessa magnífica igreja pode começar a ser contada com a construção de um convento menor, no local do atual, pelos recém chegados missionários franciscanos em 1587, dois anos depois da fundação do primeiro convento franciscano, de Nossa Senhora das Neves em Olinda. Segundo o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), entre 1624 e 1625, com a invasão e ataque Holandês a primeira capital do Brasil, esse convento infelizmente foi destruído.

Em 1686, o Frei Vicente de Chagas comandou a construção do convento existente até hoje, e em 1708 a Igreja começou a ser construída. Cerca de 40 anos depois, a Igreja e convento finalmente ficaram prontos.

Com seu interior extremamente decorado, do chão ao teto, e riquíssimo em talha dourada, ela levanta uma questão polêmica. Como um convento e igreja feitos por franciscanos, homens que renunciaram a todo tipo de bem material para viverem de acordo com as regras da Ordem Franciscana, poderiam ser tão grandiosos e ricos? Com qual dinheiro ele poderia ter sido feito se aqueles frades não tinham condições? Apesar de não possuírem engenhos e outros recursos, os franciscanos conseguiram ornamentar sua igreja devido a uma autorização da coroa para pedir esmola para Minas Gerais em 1731. Para entender o motivo desse pedido é necessário se situar historicamente.

Vasconcelos (1997) em seu artigo “A idade de Ouro de Salvador” para a revista Território retrata como se deu a crise do açúcar e como foi possível ser a mesma época do apogeu de sua arquitetura. Em 1698 houve a descoberta de ouro em Minas Gerais, com isso a agricultura foi sendo deixada de lado, e o preço dos escravos foi se elevando cada vez mais, logo fazendas e engenhos foram fechando, e ai se deu a crise do açúcar. Porém alguns fatores conseguiram movimentar a economia em Salvador, não como antes, mas o suficiente para a construção de alguns monumentos. Esses fatores eram: os comerciantes baianos que passavam a tomar como medida de venda o ouro; os traficantes de escravos; os financiadores dos engenhos; os próprios proprietários de engenhos que lucravam com a venda de seus escravos e com “ganhos políticos”; os criadores de gado que os vendiam para Minas; entre outros. Vale citar que em 1701 era proibida a circulação de ouro entre Bahia e Minas Gerais, chegando a haver revistas em conventos para encontrar ouro escondido. Mesmo assim a quantidade de ouro na Bahia era enorme, fruto do contrabando entre ela e Minas. Agora se pode entender o porquê dos franciscanos terem que pedir autorização para a coroa.

Outro motivo para a grande quantidade de ouro, tecidos nobres, e materiais extremamente caros foi o Concilio de Trento, que tinha colocado que a população deveria ter maior participação com a igreja. Logo ela passou a financiar esses gastos (RABELO, 2010). Há também uma frase dita por São Francisco que ilustra essa extravagância: “A Deus tudo, aos frades o necessário.” Apesar de todo esse luxo na construção, os frades vivem somente com o necessário, luxo e fartura não são algo que eles precisam para viver.

Para encerrar a parte histórica não podemos esquecer a rica biblioteca que o Convento São Francisco possui. Como também era responsável pela formação dos frades, sua biblioteca era especializada em teologia e filosofia, cursos que começaram a ser dados aos jovens frades em 1630. A biblioteca crescia de acordo com a necessidade e a possibilidade de compra de novos livros, datando até 1811 a compra de livros novos e usados. Em 1855 vários noviciados e conventos foram fechados, devido à crise religiosa iniciada no governo de Marques Pombal. Logo a biblioteca foi esquecida e abandonada. Apenas em 1892 a biblioteca voltou a ter sua importância e a ser cuidada, isso porque os franciscanos alemães vieram ao Brasil para recuperar o que Pombal destruiu, a tradição franciscana. Com a revitalização do convento, sua biblioteca foi ganhando mais importância como centro de formação, conseguindo assim mais livros, alguns em português e outros em traduções de latim e alemão. Na década de setenta os livros foram transferidos para uma antiga editora, mas alguns, os mais raros, continuaram na biblioteca do convento. (FRAGOSO, S/D).

A história desse convento se entrelaça a diversos acontecimentos do período colonial brasileiro. Além de estar no Centro Histórico de Salvador, que é Patrimônio da Humanidade, e ter sido tombado pelo IPHAN em 1938, também é considerado uma das Sete Maravilhas do Mundo Lusófono. E apesar de todo o desgaste que ela possui hoje, o convento e igreja São Francisco ainda tem sua beleza única que espanta os olhares.

Implantação

O convento e igreja São Francisco e a Igreja da Sé ficam voltadas uma para outra, no Largo do Cruzeiro e no Terreiro de Jesus, respectivamente. Como faz parte do Centro Histórico ela é rodeada de edifícios coloniais e antigos, sendo eles religiosos, civis ou militares.

Em relação a sua localização ela fica na antiga “cidade alta”, nome dado para a parte da cidade localizada em cima da falha geológica (escarpa), onde ficavam as construções mais “nobres”, como residências, igrejas, prédios públicos entre outros. Estrategicamente, o porto e os armazéns ficavam na parte baixa, para facilitar a ida e vinda de mercadorias (PINHEIRO, 2008).

Representação no mapa atual de onde seria a Cidade Alta e a Cidade Baixa

figura1.png

Fonte: Eloísa Petti Pinheiro, 2008.

Salvador está localizada na costa brasileira, possui em sua topografia espigões, lombadas prolongadas, colinas, vales e escarpas. O clima predominante é o tropical, porém há diferença na quantidade chuva que cada região da Bahia recebe.

Imagem de Salvador ressaltando o relevo de escarpas (Cidade alta)fig2.png

Em relação ao solo da cidade de Salvador, que pode vir a afetar algum dos monumentos históricos presente nela, podemos dizer que:

“A cidade do Salvador apresenta em seu sítio grandes áreas com alta suscetibilidade a erosão do solo, o equivalente a 28,9 %, ou seja, 93,8 km², resultado de uma estrutura de base areno-argilosa, relevo movimentado, com declividades acentuadas, favorecendo o processo de morfogênese, além da disposição da ocupação do solo, através da impermeabilização dos fundos de vale, e o adensamento nas encostas, agravando as consequências no trimestre chuvoso, abril a junho, saturando o solo e deixando mais fluído.” (VALE; GUIMARÃES, 2012.)

A igreja

Com influência jesuítica, seu exterior simples abriga na verdade um interior luxuoso que ostenta a riqueza da época. Também conhecida como “caverna de ouro”, a igreja de São Francisco possui uma planta diferente das outras franciscanas construídas no nordeste brasileiro, tendo três naves ao invés de uma.

Construída de pedra calcária e arenito, a igreja se abre para um “largo” com um cruzeiro, elemento importante para a liturgia franciscana e para demarcação de um território tido como sagrado. A fachada de influência maneirista é composta por duas torres laterais com pináculos piramidais; cinco entradas, sendo que as três centrais fazem parte da nave; um frontão decorado com volutas e a imagem de São Francisco esculpido em mármore branco, atualmente recoberto por tinta, colocado em um nicho da fachada abaixo do brasão da ordem franciscana.

Cruzeiro e fachada da Igreja de São Francisco

fig3.png

Fonte: salvadordestination.com.br

O interior da igreja revestido de talha dourada possui formas variadas de flores, frisos, arco, volutas, figura de anjos e animais, imagem de santos, além dos azulejos, detalhes que mostram a obra prima da arte sacra e o porquê da inquietação no olhar ao se entrar nela. Característico do estilo barroco, a construção promove a reflexão entre a magnitude de Deus diante da pequenez do homem.

A nave central é direcionada para o altar-mor, sendo separados pelo arco do cruzeiro. O altar ladeado por dois retábulos tem como imagem principal à de Cristo crucificado sendo abraçado por São Francisco, talhado por Pedro Ferreira, imagem inspirada na obra de Bartolomé Murillo. Já as naves laterais por serem baixas, estreitas e cobertas por uma galeria serviram de ambulatório para as capelas secundárias que abrigam a imagem de diferentes santos. Além do altar-mor a igreja possui oito capelas secundárias sendo duas delas localizadas nos braços do transepto.

Planta Baixa da Igreja e Convento de São Francisco

fig4.png

Fonte: Paula Maria Rezende Souza Santana, 2013.

O teto da nave principal é formado por pinturas poligonais emolduradas em uma talha branca com filetes dourados, obra de Jerônimo da Graça desempenhada entre 1733 e 1737, retratando o ciclo mariano.

As paredes na entrada da igreja e no altar além de revestidas com talha dourada também são ornadas com os azulejos portugueses, relatando o nascimento de São Francisco e suas renúncias aos bens materiais, trabalho esse, atribuído á Bartolomeu Antunes de Jesus grande mestre de azulejaria em Portugal.

 As cadeiras que compõe o coro, as balaustradas e os móveis da sacristia ambos de jacarandá, são de autoria do frei Luis de Jesus, também chamado de “Torneiro”. Já as duas pias de água benta situadas de baixo do coro, feitas de pedra, foram doações de D. João V, rei de Portugal.

O convento

Ao lado da igreja, o convento foi construído em volta do claustro, símbolo da vida conventual, local de convergência, meditação e oração.

Projetado em 1686 por Francisco Pinheiro o claustro possui um subsolo e dois pavimentos, no térreo as galerias com arcadas abobadadas muito se assemelham aos do hospital dos Inocentes em Florença, o que demonstra influência europeia. No andar superior há uma galeria de passeio aberto com vigas aparentes e telhado inclinado.

O convento foi decorado com inúmeros painéis de azulejos encomendados de Portugal, porém os mais significativos encontram-se na parte térrea do claustro. Com 37 painéis e cerca de dois metros de altura cada um, as cenas retratadas foram baseadas em gravuras do pintor holandês Otto van Veen, com a presença de mitologia e o uso de epígrafes extraídas da obra do poeta e filósofo Horácio, cuja sabedoria segundo escritores contemporâneos, se assemelha aos do cristianismo.

Comparação entre o claustro do convento de São Francisco e o do hospital de Florença

A intenção dessas imagens, segundo os freis responsáveis pela administração do convento, era de fazer com que os religiosos refletissem sobre os valores cristãos.

Não se sabe ao certo o artista que produziu os azulejos mais atribuísse o trabalho a Bartolomeu Antunes de Jesus, o mesmo que teria assinado os painéis do altar e entrada da igreja.

Outros espaços que merecem atenção são a sacristia e a biblioteca. A sacristia decorada em talha dourada e mármore, entre 1710 a 1714 pelo frei Luis de Jesus, teve seu altar todo adornado com elementos do barroco, a transição da parede para o teto foi feito através de pinturas com passagens da vida de São Francisco, e no teto painéis estilo caixote circundando o emblema da ordem franciscana no centro.

A biblioteca do convento, com seu teto decorado com painéis, um altar para São Boaventura, móveis de jacarandá e uma estante repleta de livros impressos e manuscritos demonstram o interesse da igreja pela cultura e pela ciência.

Conclusão

A Igreja e Convento de São Francisco proporciona através de sua arquitetura uma sensação sagrada, sua exuberância cria um cenário em que coloca o homem frente à grandiosidade de Deus. Pois este era o objetivo do barroco, persuadir e impactar de modo que as pessoas refletissem o seu papel como cristão.

Após analisar as características e técnicas construtivas utilizadas em sua construção e conhecer sobre sua história e implantação no conjunto urbanístico de Salvador, pode se afirmar que a Igreja e Convento São Francisco é uma construção que remonta a rica história de um povo e de um lugar, e que guarda em seu interior a alma do barroco.

Cada detalhe foi pensado para que fizesse parte de um conjunto maior, a perfeição das artes menores, é que faz desta igreja e convento símbolo de beleza e riqueza. Uma unidade em que, independente da época, o homem ira buscar para receber a misericórdia e o perdão divino.

Plágio é crime, não se esqueça de referenciar o blog caso utilize este material para fins acadêmicos.

 

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